Borboleta

Borboleta

quinta-feira, 15 de agosto de 2019







"Eu convido, portanto, neste dia de Assunção, o conjunto de meus filhos e o conjunto da vida sobre a Terra a render-se à Luz, a render-se ao Amor.

Quaisquer que sejam seus medos, o Amor é, sempre, maior que o maior dos medos.
Verifiquem-no em seu corpo, verifiquem-no a cada ocasião – aí está a verdadeira oração.

Sua única nutrição vai tornar-se, muito em breve, o que vocês são, em verdade e na eternidade.
Esse já é o caso, eu sei, para inúmeros de meus filhos que veem seus hábitos anteriores desaparecerem, que veem suas últimas crenças desmoronarem.
Não vejam a ferida, aliás, eles não veem a ferida, eles ali veem, simplesmente, o estabelecimento da graça do Amor."


"Permitam-me, também, como Mãe da humanidade, estar presente ao seu lado, a partir do instante em que vocês entram em si.
Eu diria, mesmo, que não há mais necessidade de perceber nossas presenças, de perceber o Canal Mariano, de perceber seus chacras ou os novos corpos, ou as Estrelas e as Portas.
Há uma consciência nua que está aí, que os espera, que não depende de qualquer manifestação exterior – mesmo da Luz –, mas que é a própria Luz, o que vocês são.

Então, a cada dia e a cada instante, nós estamos, todos, em vocês, presentes, ao seu lado e em vocês.
Nós não estamos mais, simplesmente, em relação ou em comunhão, nós não estamos mais, unicamente, em fusão – como os mecanismos de consciência que lhes foram, talvez, dados a viver –, mas é a instalação do reino do Amor, que não depende de qualquer circunstância nem de qualquer estado anterior."



***

Eu sou Maria, Rainha dos céus e da Terra.
Filhos do Amor, eu me dirijo a vocês, neste dia da Assunção, não como representante da Confederação Intergaláctica dos Mundos Livres, porque vocês sabem, há numerosos meses nós nos exprimimos, todos juntos, por uma única voz.
Eu venho vê-los, hoje, como Maria, aquela que criou e percorreu com seus passos essa Terra, que me faz igual a vocês mesmos na encarnação, que conheceu a vida, a morte e a ressurreição.

… Silêncio…

Eu nada venho anunciar-lhes de especial, porque tudo o que é visto, em vocês e ao seu redor, hoje, mostra-lhes, claramente - se é que vocês querem olhar, realmente, as coisas de frente –, que se vive, nesse momento mesmo, o tempo que foi profetizado por inúmeras vozes, tanto pelo bem amado João como o conjunto de profetas que percorreu esse mundo em encarnação.

Lembrem-se, antes de qualquer coisa, de que tudo isso se desenrola em vocês, do mesmo modo que o que vocês veem na tela desse mundo.
Então, é claro, mais do que nunca, o conjunto de palavras dos Anciões, das Estrelas como dos Arcanjos está aí apenas para pô-los em face de si mesmos, em face do medo ou em face do Amor, para engajá-los, com firmeza, no Amor que apaga e transcende todo medo.

Assim, cada um de vocês, meus filhos, onde quer que esteja nessa Terra, encontra-se confrontado a essa última escolha.
Não é mais questão de atribuição vibral, não é mais questão de posicionar-se alhures que não no Coração do Coração, aí, onde o Amor, transcendente, incondicionado, mas no qual também o amor humano toma todo seu lugar e toda sua verdade e, sobretudo, toda sua eficácia.

O conjunto de circunstâncias de suas vidas, qualquer que seja sua vida e onde quer que vocês estejam, em qualquer idade que vocês tenham, hoje, está aí apenas para pô-los em face desse dilema, se posso dizer: o medo ou o Amor.
Assim, como mãe, mas, também, como humana, eu venho, hoje, exortá-los a aproveitar esse lapso de tempo que se abre a vocês, durante os últimos meses deste ano específico, para afirmar-se no amor e deixar ser o Amor, que atravessa toda pessoa e toda condição que vocês têm a viver neste período.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Ramana Maharshi – Jnani


"Examine todos os tipos de estados de consciência e, ao fixar-se naquele estado no qual se percebe que apenas o Ser Supremo é a verdade, verá que sua vida e atividade no mundo serão encaradas como um jogo. Neste caso você descobriu qual a realidade que se acha no interior de seu coração, acima de todas as aparências deste mundo. Assim, sem perder de vista o supremo, divirta-se como quiser neste mundo." 

"Dando a impressão que tem entusiasmos e gratificações, ansiedades e aversões (mas na realidade não tendo nenhum deles), dando a impressão de iniciar e perseguir objetivos (mas na realidade não tendo qualquer apego a esses esforços), encarregue-se dos afazeres do mundo sem qualquer prejuízo para você. Livrando-se de todos os apegos, mantendo a mesma equanimidade e exercendo suas atividades terrenas em consonância com o meio em que você se encontre, divirta-se no mundo como lhe apraz." 

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Ramana Maharshi  
O Jnani

Um Jnani é aquele que atingiu a liberação enquanto vivo, aqui e agora. Para ele é indiferente como, quando ou onde deixará o corpo. Alguns jnanis podem dar a impressão que estão sofrendo, outros podem estar em samadhi; outros ainda podem desaparecer da vista de todos antes da morte. Mas isto não faz diferença para sua jnana. Seu sofrimento é aparente, mas parece real aquele que o observa, pois o jnani não o sente de vez que transcendeu a falsa identidade do Eu com o corpo.

O jnani não pensa que é o corpo. Ele nem sequer vê o corpo. Ele é apenas o Eu no corpo. Se o corpo lá não está, mas apenas o Eu, a questão referente ao seu desaparecimento sob qualquer forma não surge. Como é explicado nos livros a maior das doenças que temos é o corpo, a doença do nascimento, e se o indivíduo toma remédios para fortalecer e prolongar sua vida, é como o homem que toma remédios para perpetuar a doença. Um verso em sânscrito, extraído do XI capítulo do Bhagavata, diz que o corpo não é real (é impermanente). O siddha não é consciente do corpo mesmo que este esteja descansando, ou se movendo, ou, por razoes karmicas, esteja ligado a ele ou se libere dele. É comparável a um ébrio que, cego pela intoxicação alcoólica, não está consciente se seu corpo está vestido com roupa ou não.

Exemplos são dados nos livros mostrando como o jnani, que se acha no estado de sahaja e que percebe sempre e apenas o Eu, pode mover-se e viver no mundo como os demais seres. Por exemplo, você vê um reflexo no espelho. Você sabe que o espelho é real, mas a imagem nele é um mero reflexo. Será necessário que, para se ver o espelho, tenhamos necessidade de parar de ver o reflexo nele existente? Vejamos o exemplo da tela. Na tela aparece de início uma figura. Ao lado desta aparecem outras figuras e a primeira figura passa a ver as outras. Se você é a tela, e sabe que é a tela, será necessário não ver a primeira figura e as outras imagens? Se você não conhece a tela você pensa que as figuras e as outras imagens são reais. Mas quando você conhece a tela e a realiza ela é a única realidade sobre a qual, na qualidade de substrato, as sombras da figura e as imagens são projetadas; verá então que são meras sombras. Você poderá ver as sombras, percebendo-as como tal, e conhecer-se a si mesmo como a tela que é a base de todas elas.

Você tem a impressão que é o corpo físico. Desse modo pensa que o jnani também tem um corpo. O jnani por acaso diz que tem um corpo? Ele pode olhar para você como se tivesse um corpo e fazer coisas com o corpo como fazem outras pessoas. Uma corda que foi queimada ainda parece ser uma corda, mas não serve mais como corda caso você queira prender alguma coisa com ela. Enquanto a pessoa se identifica com o corpo, tudo isso é difícil de entender.

Examine todos os tipos de estados de consciência e, ao fixar-se naquele estado no qual se percebe que apenas o Ser Supremo é a verdade, verá que sua vida e atividade no mundo serão encaradas como um jogo. Neste caso você descobriu qual a realidade que se acha no interior de seu coração, acima de todas as aparências deste mundo. Assim, sem perder de vista o supremo, divirta-se como quiser neste mundo. Dando a impressão que tem entusiasmos e gratificações, ansiedades e aversões (mas na realidade não tendo nenhum deles), dando a impressão de iniciar e perseguir objetivos (mas na realidade não tendo qualquer apego a esses esforços), encarregue-se dos afazeres do mundo sem qualquer prejuízo para você. Livrando-se de todos os apegos, mantendo a mesma equanimidade e exercendo suas atividades terrenas em consonância com o meio em que você se encontre, divirta-se no mundo com lhe apraz.

Aquele cuja mente não está apegada a qualquer desejo na realidade não atua, embora seu corpo possa fazê-lo. Ele é como uma pessoa que está ouvindo uma história, mas sua mente está muito longe. De modo semelhante o homem cuja mente está cheia de desejos está realmente agindo embora seu corpo possa estar imóvel. Um homem pode estar dormindo, mas seu corpo está inerte e mesmo assim ao mesmo tempo ele pode estar escalando montanhas ou descendo delas durante o sonho…

Para a pessoa que está dormindo profundamente deitado numa carroça tanto faz que os bois achem-se atrelados nela e se movam ou que estes sejam desatrelados. Da mesma forma para o jnani, que foi dormir na carroça de seu corpo físico, tanto faz que esteja trabalhando ou em meditação profunda (samadhi) ou dormindo.

Quando às vezes se diz que o jnani se livra dos karmas sanchita e agamya mas deverá sofrer o prarabdha, na realidade isto é uma resposta convencional à inquiridores ocasionais. Tal como uma entre várias esposas não pode se livrar de se tornar viúva quando o marido delas todas morre, assim também nenhum tipo de karma pode sobreviver no estado em que o sentido de autor desaparece, o sentido de eu fiz isso.

Nota: o karma se diz ser de três tipos. Prarabdha é aquela porção do karma passado que está designado para ocorrer na vida presente; sanchita é o resto de seu passado karma e agamya aquele que foi acumulado na presente encarnação.

A inatividade do sábio é realmente a cessação da atividade, sua característica é atividade eterna e intensa. Sua imobilidade é como se fosse a aparente imobilidade de um disco que gire em alta rotação. Sua extrema velocidade não pode ser acompanhada pela visão humana e por isso dá a impressão que está parada. Isto deve ser explicado, pois o povo interpreta erroneamente a imobilidade do sábio como sendo inércia.

***

O JNANI E O MUNDO




Discípulo: O mundo é percebido pelo jnani ?
(Jnani: a pessoa que atingiu o auto-conhecimento. Jnana: conhecimento, especialmente o conhecimento do Eu real. Jnana-vichara: auto-investigação, investigação levando a Jnana ou auto-conhecimento)

Maharshi: De quem é a pergunta? De um ou jnani ou de um ajnani?

Discípulo: De um ajnani, admito.

Maharshi: É o mundo que busca decidir a questão sobre a sua realidade? A dúvida surge em você. Conheça, em primeira instância, quem é esse que duvida, e então você pode considerar se o mundo é real ou não.


Discípulo: O ajnani vê e conhece o mundo e seus objetos, que afetam seus sentidos de tato, paladar, etc. O jnani experimenta o mundo da mesma maneira?

Maharshi: Você fala acerca de ver e conhecer o mundo. Mas, sem conhecer a si mesmo, o sujeito cognoscente (sem o qual não há conhecimento do objeto), como você pode conhecer a verdadeira natureza do mundo, o objeto conhecido? Os objetos, não há dúvida alguma, afetam o corpo e os órgãos dos sentidos; mas é para o seu corpo que surge a pergunta? O corpo diz "percebo o objeto, ele é real"? Ou, é o mundo que lhe diz: "Eu, o mundo, sou real"?

Discípulo: Eu só estou tentando compreender o ponto de vista do jnani sobre o mundo. O mundo é percebido pelo jnani após a autorrealização?

Maharshi: Por que se preocupar sobre o mundo e o que acontece com ele depois da autorrealização? Primeiro perceba a Si Mesmo. Que importa se o mundo é percebido ou não? Você ganha algo para ajudá-lo em sua busca pela não perceção do mundo durante o sono profundo? De modo contrário, o que você perderia agora pela perceção do mundo? É totalmente indiferente ao jnani ou ao ajnani se eles percebem o mundo ou não. Ele é visto por ambos, mas seus pontos de vista são diferentes.

Discípulo: Se o jnani e o ajnani percebem o mundo de igual maneira, onde está a diferença entre eles?

Maharshi: Ao ver o mundo, o jnani vê o Self (o Si mesmo, o Ser, o Eu), que é o substrato de tudo o que é visto; o ajnani, vendo o mundo ou não, é ignorante do seu verdadeiro Ser, o Self. Considere o caso das imagens em movimento na tela do cinema. O que está lá à sua frente antes de a exibição começar? Apenas a tela. Nessa tela você vê todo o filme, e, aparentemente, as imagens são reais. Mas vá e tente pegá-las. No que você toca? Apenas na tela, em que as imagens pareciam tão reais. Após o filme, quando as imagens desaparecem, o que resta? A tela de novo! Da mesma forma, com o Self. Só ele sempre existe; as imagens vêm e se vão. Se você se ativer a Si Mesmo, não será enganado pela aparência das imagens. Tampouco tem importância se as imagens aparecem ou desaparecem. Ignorando o Self, o ajnani acha que o mundo é real, assim como, ignorando a tela, ele vê apenas as imagens, como se estas existissem à parte daquela. Quando se sabe que sem o vidente não há coisa alguma a ser vista, assim como não há imagens sem a tela, não se é iludido. O jnani sabe que a tela, as imagens e os olhos que as veem são tão somente o Self. Com as imagens, o Self está em sua forma manifesta; sem as imagens, ele permanece na forma não-manifesta. Para o jnani, é bastante irrelevante se o Self está em uma forma ou outra. Ele é sempre o Self. Mas o ajnani, vendo o jnani ativo, fica confuso.

Discípulo: É exatamente esse o ponto que me levou a colocar minha primeira pergunta, ou seja, se a pessoa que realizou o Self percebe o mundo como nós, e, se o faz, eu gostaria de saber como Sri Bhagavan se sentiu quanto ao misterioso desaparecimento da foto ontem...

Maharshi: (Sorrindo) Você está se referindo à foto do Templo de Madurai. Poucos minutos antes, ela estava passando pelas mãos dos visitantes, que a contemplavam. Evidentemente, perdeu-se entre as páginas de um livro ou outro que eles estavam consultando.

Discípulo: Sim, foi esse o incidente. Como Bhagavan o encarou? Houve uma busca ansiosa pela foto, que, ao final, não pôde ser encontrada. Como Bhagavan considerou o misterioso desaparecimento da foto, exatamente no momento em que estava sendo procurada?

Maharshi: Suponha que você sonhe que está me levando para o seu distante país, a Polónia. Você acorda e pergunta-me: "Eu sonhei assim e assim; você também teve esse sonho, ou sabe, de alguma outra forma, que eu o estava levando para a Polónia?" Que significado você atribuirá a uma tal questão?

Discípulo: Mas, no que diz respeito à foto perdida, o incidente todo ocorreu na frente de Sri Bhagavan.

Maharshi: A visão da foto e seu desaparecimento, bem como a sua presente pergunta, são, todos, meras operações mentais. Há uma história purânica que ilustra o ponto. Quando Sita desapareceu do eremitério na floresta, Rama saiu à sua procura, pranteando “Oh Sita, Sita!" Diz-se que Parvati (esposa de Shiva) e Parameswara (Senhor Supremo, Shiva) viram de cima o que estava acontecendo na floresta. Parvati expressou sua surpresa a Shiva e disse: "Você elogiou Rama como o Ser Perfeito. Veja como ele se comporta e se entristece diante da perda de Sita!" Shiva respondeu: "Se você é cética quanto à perfeição de Rama, então submeta-o a um teste você mesma. Por meio da sua yoga maya (poder de criar ilusões), transforme-se e apareça como Sita diante dele". Parvati fez o que lhe foi sugerido. Ela apareceu na forma de Sita diante de Rama, mas, para seu espanto, Rama ignorou sua presença e seguiu como antes, gritando “Oh Sita, oh Sita!”, como se fosse cego.

Discípulo: Não compreendi a moral da história

Maharshi: Se Rama estivesse realmente procurando a presença corpórea de Sita, ele teria reconhecido a pessoa que estava de pé na frente dele como a Sita que ele havia perdido. Mas não, a Sita desaparecida era tão irreal quanto a Sita que apareceu diante de seus olhos. Rama não estava realmente cego; mas, para ele, um jnani, Sita no eremitério, seu desaparecimento, sua subsequente busca por ela, bem como a real presença de Parvati sob o disfarce de Sita, eram, todos, igualmente irreais. Entendeu agora como a falta da foto foi percebida?

Discípulo: Não posso dizer que está claro para mim. O mundo que é visto, sentido e percebido por nós, de muitas formas, é algo como um sonho, uma ilusão?

Maharshi: Não há alternativa, a não ser aceitar o mundo como irreal, se você está procurando a Verdade e somente a Verdade.

Discípulo: Por que isso?

Maharshi: Pela simples razão de que, a menos que você desista da ideia de que o mundo é real, sua mente vai sempre estar em busca do mundo. Se você tomar a aparência como real, você nunca conhecerá o próprio real, embora apenas o real exista. Este ponto é ilustrado pela analogia da "serpente na corda”. Enquanto você vê a serpente, não pode ver a corda como tal. A inexistente serpente torna-se real para você, enquanto a corda real parece totalmente inexistente como tal.

Discípulo: É fácil de aceitar, provisoriamente, que o mundo não é, em última análise, real, mas é difícil ter a convicção de que é realmente irreal.

Maharshi: Da mesma forma, o seu mundo de sonho é real enquanto você está sonhando. Enquanto o sonho perdura, tudo o que você vê, sente, etc., nele é real.

Discípulo: Então, o mundo não é coisa alguma além de um sonho?

Maharshi: O que há de errado com o senso de realidade que você tem enquanto está sonhando? Você pode estar sonhando com algo completamente impossível, como, por exemplo, estar tendo um alegre bate-papo com uma pessoa que já morreu. Por um momento, apenas, você pode ter uma dúvida no sonho e questionar-se: 'ele não estava morto?'; mas, de alguma forma, sua mente se reconcilia à visão do sonho, e é como se a pessoa estivesse viva, para os propósitos do sonho. Em outras palavras, o sonho, enquanto sonho, não permite a você duvidar de sua realidade. Da mesma forma, você é incapaz de duvidar da realidade do mundo de sua experiência na vigília. Como pode a mente, que criou o mundo, aceitá-lo como irreal? Esse é o significado da comparação feita entre o mundo da experiência na vigília e o mundo dos sonhos. Ambos são apenas criações da mente; e enquanto a mente se encontra envolvida em qualquer um deles, acha-se incapaz de negar a realidade do sonho, enquanto está sonhando, e do mundo da vigília, enquanto acordada. Se, pelo contrário, você retira sua mente completamente do mundo e a volta para dentro e permanece assim, ou seja, se você permanece sempre desperto para o Self, que é o substrato de toda a experiência, você vai ver o mundo, o único de que agora você está cônscio, tão irreal quanto o mundo em que você viveu em seu sonho.

Discípulo: Como eu disse antes, nós vemos, sentimos e percebemos o mundo de tão variadas maneiras. Essas sensações são as reações aos objetos vistos, sentidos etc., e não são criações mentais como nos sonhos, que diferem não só de pessoa para pessoa, mas também no que diz respeito à mesma pessoa. Isso não é suficiente para provar a realidade objetiva do mundo?

Maharshi: Toda essa conversa sobre inconsistências e sua atribuição ao mundo dos sonhos surge só agora, quando você está acordado. Enquanto você estava sonhando, o sonho era um todo perfeitamente integrado. Quer dizer, se você sentiu sede em um sonho, a ilusória ingestão de água ilusória saciou a sua ilusória sede. Mas tudo isso era real e não ilusório para você, enquanto você não sabia que o próprio sonho era ilusório. Da mesma forma com o mundo da vigília; e as sensações que você tem agora se coordenam para dar-lhe a impressão de que o mundo é real. Se, pelo contrário, o mundo é uma realidade auto-existente (isso é o que você quer dizer, evidentemente, quando fala da objetividade dele), o que impede o mundo de se revelar a você no sono profundo? Você não diz que você, em seu sono profundo, deixou de existir.

Discípulo: Nem nego a existência do mundo, enquanto estou dormindo. Ele existiu durante todo o tempo. Se durante meu sono eu não o vi, outros que não estavam dormindo viram-no.

Maharshi: Para você afirmar que continua existente durante o sono profundo, é necessário apelar para o testemunho de outros, de modo a que lhe forneçam a prova? Por que buscar agora o seu testemunho quanto à existência do mundo? Esses 'outros' podem lhe dizer ter visto o mundo (durante o seu sono profundo) apenas quando você está acordado. Com relação à sua própria existência, é diferente. Ao acordar, você diz que teve um sono profundo, de modo que, com relação a esse ponto, você está consciente de si mesmo no mais profundo sono, enquanto que não tem, então, a menor noção da existência do mundo. Mesmo agora, enquanto você está acordado, é o mundo que diz: "eu sou real", ou é você?

Discípulo: É claro que sou eu, mas digo isso quanto ao mundo.

Maharshi: Bem, então esse mundo, que você diz que é real, está realmente zombando de você, por tentar provar a realidade dele enquanto você ignora a sua própria realidade. Você quer, de alguma maneira, sustentar que o mundo é real. Qual é o padrão de realidade? É real unicamente aquilo que existe por si mesmo, que se revela para si mesmo e que é atemporal e imutável. O mundo existe por si mesmo? Ele já foi visto alguma vez sem o auxílio da mente? No sono profundo não há mente nem mundo. Quando se acorda, há a mente e existe o mundo. O que significa essa invariável concomitância? Você está familiarizado com os princípios da lógica indutiva, que são considerados a própria base da investigação científica. Por que você não decide essa questão da realidade do mundo à luz desses princípios aceites da lógica? A respeito de si mesmo, você pode dizer 'eu existo'. Ou seja, a sua não é uma mera existência, é existência de que você é consciente. Realmente, é existência idêntica à consciência.

Discípulo: O mundo pode não ser consciente de si mesmo; ainda assim, existe.

Maharshi: A consciência é sempre auto-consciência. Se você está cônscio de alguma coisa, essencialmente você está consciente de si mesmo. Existência não consciente de si própria é uma contradição em termos. Não é realmente existência (no sentido de Ser), é meramente existência atribuída, enquanto a verdadeira existência, sat, não é um atributo, é a própria substância. É Vastu (a essência). A verdade é, portanto, conhecida como Sat-Chit, Ser-Consciência, e jamais apenas existência (Ser) ou Consciência, um com a exclusão do outro. O mundo não existe por si só, nem é consciente de sua existência. Como você pode dizer que este mundo é real? E qual é a natureza do mundo? É perpétua mudança, um fluxo contínuo, interminável. Um mundo dependente, inconsciente de si mesmo, em constante mudança, não pode ser real.

Discípulo: Não só a ciência empírica ocidental* considera o mundo real, mas também os Vedas, etc., fornecem elaboradas descrições cosmológicas do mundo e sua origem. Por que o fazem, se o mundo é irreal?

Maharshi: O objetivo essencial dos Vedas, etc., é ensinar a você a natureza do Atman (Si Mesmo imperecível, e declarar com autoridade: "Tu és Isso".

Discípulo: Concordo. Mas por que deveriam eles fornecer descrições cosmológicas extensas e detalhadas, a menos que considerassem o mundo como real?

Maharshi: Adote na prática o que você aceita em teoria, e esqueça-se do resto. Os shastras têm de guiar todo tipo de buscador da verdade, e nem todos têm a mesma formação mental. Aquilo que você não pode aceitar considere como artha vada ou argumento auxiliar.


* NOTA

Em última análise, o mundo da perceção sensorial resolve-se em duas categorias, que são tempo e espaço. E eis aqui o que Sir James Jeans escreve em seu livro, The New Background of Science, como conclusão derivada de experimentos baseados na Teoria da Relatividade de Einstein:

"Vemos que o espaço não significa coisa alguma separada da nossa perceção de objetos, e o tempo não significa coisa alguma que esteja separada de nossa experiência de eventos. O espaço começa agora a ser visto apenas como uma ficção criada por nossas próprias mentes*, uma ilegítima projeção que impomos à Natureza de um conceito subjetivo, que nos ajuda a compreender e a descrever o arranjo de objetos como vistos por nós, enquanto que o tempo aparece como uma segunda ficção (sem o passado e o futuro, o tempo, como geralmente concebido, não passa de um mito – v. o verso 15 de A Verdade Revelada), servindo a um propósito semelhante para a compreensão e descrição do arranjo de eventos que acontecem connosco".

O leitor deve observar que, quando o tempo e o espaço são considerados pela ciência moderna como meras ficções criadas por nossas próprias mentes, objetos e eventos tornam-se, ipso facto, meras criações da mente (veja os versículos 17 e 18 de A Verdade Revelada), porque não podem existir sem tempo e espaço.

Quanto à solidez atribuída pelo leigo à matéria, as seguintes conclusões extraídas da física experimental moderna fornecem a resposta:

1. A ciência não sabe coisa alguma a respeito da verdadeira natureza dos constituintes do átomo. Ela conhece apenas as radiações que daí provêm, mas jamais a própria fonte.

2. Uma vez que o átomo irradia energia continuamente, o elétron de um determinado momento não pode ser identificado com o elétron de outro momento.

3. "O elétron deixa completamente de ter as propriedades de uma ‘coisa’, como concebida pelo senso comum - ele é apenas uma região da qual pode irradiar energia”. (Outline of Philosophy, de Bertrand Russell).

Essa é a conclusão a que chegou Bertrand Russell: "Agora, devido principalmente a dois físicos alemães, Heisenberg e Schrodinger, os últimos vestígios do antigo átomo sólido desfizeram-se, e a matéria tornou-se tão fantasmagórica como qualquer coisa em uma sessão espírita".

Que o leitor então julgue por si mesmo em que maneira o mundo da perceção sensorial na vigília é fundamentalmente diferente do mundo dos sonhos, lembrando-se de que foi dito acima, no corpo deste capítulo, e do que foi dito por Sri Ramana em 'Quem sou eu?': "Exceto pelo fato de o estado de a vigília ser longa e o estado de sonho ser curto, não há diferença entre os dois" Esta verdade, ecoada pela moderna ciência, é expressa assim pelo Dr. Eddington:

"A clara constatação de que a ciência física se ocupa com o mundo de sombras é um dos mais significativos avanços... No mundo da física assistimos a um desempenho do drama da vida cotidiana em forma de sombras animadas

(a apresentação de imagens na tela de Si Mesmo, como dito por Bhagavan); a sombra do meu cotovelo repousa sobre a mesa de sombra, assim como a sombra de tinta flui sobre a sombra do papel". (The Nature of the Physical World).


* A Verdade Revelada (Ramana Maharshi):

15. Apenas com referência ao presente podem o passado e o futuro existir. Eles também, enquanto ocorrem, são o presente. Tentar determinar a natureza do passado e do futuro, ignorando o presente, é como tentar contar sem a unidade.

16. Separados de nós, onde estão o tempo e o espaço? Se somos corpos, estamos envolvidos no tempo e no espaço; mas, somos corpos? Somos um só e idênticos, agora e para sempre, aqui e em toda parte. Portanto, apenas nós, o Ser atemporal e desprovido de espaço, somos.

17. Para aqueles que ainda não perceberam Si Mesmo, bem como para aqueles que perceberam, a palavra "eu" se refere ao corpo, mas com a diferença de que, para quem ainda não percebeu, o "eu" se limita ao corpo, enquanto que para aqueles que já perceberam Si Mesmo dentro do corpo, o "eu" brilha como o Si Mesmo ilimitado.

18. Para quem ainda não percebeu ( o Si Mesmo), bem como para aqueles que o fizeram, o mundo é real. Mas, para aqueles que ainda não perceberam, a Verdade se restringe ao mundo, enquanto que, para os que perceberam, a Verdade brilha como a Perfeição sem forma e como o substrato do mundo. Esta é a diferença entre eles.


N.T - A mecânica quântica usual, baseada na chamada "Escola de Copenhague", tem como base filosófica conceitos que exprimem a ideia do indeterminismo, da não causalidade, e do fato de que não podemos entrar em contacto direto com a natureza, e sim interpretar aquilo que obtemos através de um experimento. A natureza não existe como uma realidade objetiva independente do observador. É o ato de medida, praticado pelo observador dotado de consciência, que torna real um dos múltiplos estados potencialmente existentes.


Fonte do Texto:
O Evangelho de Maharshi
Tradutor: Domingos Vieira
Revisor: Pedro Livio Vieira

***


A PRÁTICA DO "QUEM SOU EU" 

A TÉCNICA DE RAMANA MAHARSHI


"O que surge como "Eu" neste corpo é a mente. Se alguém indagar em que lugar surge em primeiro lugar o pensamento "Eu", essa pessoa descobrirá que esse local é o Coração. Daí origina-se a mente. Alguém que pensa constantemente "Eu", "Eu", será levada àquele local. O pensamento "Eu" é o primeiro a surgir na mente. Os demais pensamentos só brotam depois deste. É após o aparecimento do primeiro pronome pessoal que surge o segundo e terceiro pronomes; sem o primeiro pronome, inexistem o segundo e terceiro" - Bhagavan Sri Ramana Maharshi


AUTOR: V. GANESAN

Dividi minha dissertação em três partes:

(1) Perspetiva geral
(2) A essência do “quem sou eu”
(3) O inigualável Caminho de Ramana


1 – PERSPETIVA GERAL
Diz um velho ditado, que “Deus fez o Homem à sua própria Imagem”. Portanto, o Homem é constituído, primordialmente, somente de divina essência. Mas, envolvido pela Ignorância, tornou-se apartado do conhecimento dessa divina essência nele. O Instinto divino no Homem é irradicável; pode ser encoberto por algum tempo, mas ressurgirá sempre.


Os movimentos do Homem são geralmente dirigidos apenas para fora, pois todos os sentidos de seu corpo estão voltados para seu exterior, afinados somente para absorver as coisas que lhe chegam externamente. Quando suas atividades passam a ser direcionadas para o interior e se voltam para o interior, ele se apercebe de uma natureza completamente diferente nele. Afastado de tudo que é externo e dirigindo a atenção para o “interior”, apercebe-se de sua natureza divina, revelando-se em todo seu esplendor.

Qualquer um que se volte para o interior, tende a realizar essa verdade eterna em si mesmo; ninguém está excluído dessa consciência divina. Ao voltar sua atenção para o exterior, o Homem, pela própria ação, se exclui de experienciá-la conscientemente, embora todo Homem, mesmo em sua ignorância, esteja capacitado a vivenciar essa consciência divina. Tenha ou não conhecimento, todo Homem está preenchido dessa Consciência Pura, desse Puro Conhecimento.

O que encobre tal conhecimento de sua experiência consciente é o seu hábito de se apegar às coisas externas, que o leva à insatisfação, falibilidades, escuridão e medo. Se o Homem olhar em direção a seu interior, mais profunda e longamente, sem dúvida se aperceberá do chamado “escondido e misterioso Ser habitando em seu âmago, a fonte de sua existência. O fato de se voltar para o interior, abandonando as coisas externas e prestando total atenção a essa fonte, traz uma tremenda mudança na vida do Homem, pois, pela primeira vez, reconhece que possui em si a divina essência. Compreende a fala das Escrituras, “Tu és Aquilo” – que significa, “Tu próprio és Aquela Essência Divina.” 

O Conhecimento Absoluto, o Eu Sou em cada um, é essa essência de Deus. Essa realidade que existe em cada um é a Consciência ou Conhecimento. Nenhum Homem pode dizer que a desconhece.

Pelo próprio ato de negar conhecê-la, declara sua presença! As características da Realidade são de que ela sempre existiu e está apta a existir por si e em si própria. A consciência no Homem existe sempre, por si e em si própria. Portanto, cada um tem ao próprio alcance o caminho para essa eterna Luz interior.

Uma vez que alguém tenha um relance dessa experiência, do verdadeiro Ser Interno, que bilha independentemente, não necessitando de seu esforço ou suporte para existir – todas as suas atividades necessitam de seu esforço para frutificar – vai compreender que alcançou um estado maravilhoso, independente de seus cinco sentidos. Esta é uma experiência pela qual nunca passou antes. Uma experiência que foi obtida sem a ajuda, sem o auxílio dos cinco sentidos e que também nele e por ele é verdadeiramente única.

Este dia, quando tal visão de si mesmo for alcançada, será o dia mais iluminado de sua existência, pois naquele dia o indivíduo será uno com a eternidade. Quem quer que se entregue a essa busca interior não é um sonhador; “unicamente antecipa para hoje o que uma multidão de homens terão necessariamente que alcançar amanhã”.

O Homem é assim, um ser espiritual, que possui a capacidade de deter a sabedoria. Ele respira esta verdade a cada momento! Ele detém esta divina infinidade de si próprio. Esta consciência infinita é experienciada como um sentimento perene de felicidade sem causa – o aspeto “ananda” da eterna verdade de Satchidananda. Mas, ao declararmos a verdade de nosso ser interior desta forma, ou seja, a “cara” da moeda, não deveríamos também observar a “coroa”?

O mundo exterior com suas atrações e distrações devora a atenção do homem de maneira absorvente e total. A velocidade complicada do mundo exterior ao qual o sistema humano está fortemente ligado, apenso, sempre puxa o Homem mais e mais para envolvê-lo com fatos, objetos e atividades externas a cada um. O tempo também corre como um rio caudaloso levando em suas águas a raça humana, afogando-a em seu fluxo.

Em tal batalha – todo o tempo forçado a correr para fora e para frente infindavelmente, tanto física quanto mentalmente – se o Homem for suscitado a dar um pulo para trás para mergulhar em si próprio, não o fará tão simplesmente quanto uma proeza de ginástica. Dizer a este Homem, totalmente claudicante da divina consciência, da necessidade de se voltar para seu interior, seria ver tal esforço por ele considerado como “alucinação da fantasia humana e idealismo infantil.” 

Se o Homem quiser se interessar em dar uma guinada em sua vida, ou seja, voltar sua atenção consciente das atividades externas para a introspeção, precisará de uma boa causa. Qual é esta causa iminente? Sem compeli-lo mais a se envolver externamente, ainda que em nome de disciplinas espirituais, códigos éticos, regras ritualísticas, ele deve ser dirigido suave mas firmemente a se voltar a seu interior, sendo-lhe exposta a verdade do seu Ser. Bhagavan Sri Ramana Maharshi abre esse Caminho Real para atingir o “mergulho interior”, da maneira mais fácil, mais direta e mais simples.

Para entendê-lo claramente, teremos que nos ater a um ponto de vista microscópico, pois até agora estamos fazendo apenas uma observação de caráter geral. Ou seja, do ponto de vista da “raça humana”, vamos pois, voltar nossa atenção para o “indivíduo”.




2 – A ESSÊNCIA DO "QUEM SOU EU"
Como o indivíduo, como cada indivíduo nessa qualidade refere-se a si mesmo? Cada um refere-se a si mesmo como “eu” somente. Toda a vasta população, milhões e milhares deles, em todo o tempo, quando se referem a si mesmos dizem somente “eu”, “eu”. Existem tantos milhões de “eus”?

Inversamente, existe somente um “EU” ao qual um incontável número de corpos se refere! Não é estranho que toda multiplicidade esteja reduzida a uma simples sílaba? Sim o “EU” é um monossílabo que representa algo incomensuravelmente mais amplo do que ele mesmo. Embora cada um diga “eu”, “eu” somente, estranhamente, no entanto, não muitos fazem esforço para conhecer exatamente esse “EU” ou o que ele significa.

De maneira primária, com esse “EU” tendemos visivelmente a identificar o corpo, mas, numa análise mais profunda, tendemos a identificar as faculdades de pensar, sentir e querer. Podemos facilmente chegar à conclusão de que o corpo não é esse “Eu” pois é insensível.

Queremos dizer, com insensibilidade, que o corpo é aquele que é conhecido e nunca o princípio conhecedor. Disse o grande sábio “Allama Prabhu”: “Conheça-se a si mesmo sem perder a consciência. Se o corpo fosse você, porque diria “meu corpo?”

Todos falam de seus pertences, tais como minhas roupas, meu dinheiro. Alguém já se identificou dizendo “eu sou a roupa” ou “eu sou o dinheiro”?

Enganamo-nos por uma superposição de um fato, ao considerarmos o corpo como sendo o Ser. Então, o que é esse “Eu”?

No corpo, que é insensível, surge um sentido de alerta, uma sensação do “Eu”. Isto é chamado “mente”. Bhagavan Ramana diz que se alguém investigar a mente, verá que é apenas um punhado de pensamentos. A mente é, além disso, uma função onde o “Eu” funciona como base de todos os pensamentos. Todos os pensamentos existem com relação a nós. Os pensamentos existem com relação a nós ou estão conexos com nossa pessoa com relação a indivíduos, objetos, coisas, eventos e opiniões. Todos estão enraizados no seu “Eu”; assim, o eu em nós é somente o pensamento – “Eu”; a base para uma inteira gama de incontáveis pensamentos.

Vamos olhar isso ainda mais de perto. Cada dia, o primeiro pensamento ao acordar é o pensamento – “eu”. No sono estamos alheios a tudo, inclusive ao “eu” com o qual nos referimos a nós mesmos.

Esse “eu” ou pensamento-“eu” está completamente apagado no sono profundo junto com a cadeia de outros pensamentos. Se observarmos mais cuidadosamente veremos que o último pensamento antes do sono é este pensamento -“eu” que é também o primeiro a surgir quando acordamos na manhã seguinte!

Onde este “eu” mergulha e de onde este “eu” surge? É uma necessidade imediata procurar e encontrar a fonte desse “eu”, que “morre” todas as noites em nosso sono e novamente nasce na manhã seguinte.

Em acréscimo à nossa perseverança em encontrar essa fonte temos a certeza do auxílio de Sri Bhagavan, que nos impulsiona quando diz que existe um eterno “Eu”, subjacente ao conhecido “eu” e no qual esse “eu” ou pensamento-“eu” mergulha e emerge diariamente, pois é a fonte.

É importante deixar aqui gravado que as Escrituras declaram que o primeiro Nome de Deus é “Eu”.

Elas devem se referir certamente, ao eterno “Eu”, a fonte do Ser e não ao “eu” do nosso conhecimento diário. Moisés obteve uma resposta verbal de Deus quando perguntou qual era o seu nome “Meu nome é Eu Sou, Eu Sou”. Portanto, tanto das afirmações dos sábios quanto das declarações das Escrituras e também por experiência própria comum, podemos facilmente chegar à conclusão de que existe um eterno “Eu” por trás do “eu” a que nos referimos a cada dia. Esse “Eu” nos impulsiona adiante, para o despertar do conhecimento desta verdade nua da Consciência, que está escondida, inatingida, no interior.

Portanto, é essencial que observemos minuciosamente o pensamento-“eu”, que é a ligação entre o corpo e o eterno “Eu”, que as Escrituras dizem estar escondido no interior. Precisamos seguir o “pensamento-“eu” até a sua fonte, prestando total atenção nele e de onde ele surge. Como fazê-lo?

Assim: Quando outros pensamentos surgirem devemos centralizar nossa atenção no pensamento-“eu”. Todo o tempo a atenção deve ser dirigida, sem qualquer interrupção, ao sentimento “eu” ou ao pensamento-“eu”.

Quando nossa mente estiver plena de pensamentos, se fizermos a pergunta “a quem ocorreu este pensamento?” A resposta viria “a mim”. Então perguntaremos: “quem sou eu?” 

Esta pergunta “quem sou eu?” volta nossa atenção novamente ao “eu” e essa atenção nos conduz até a Fonte. Assim, focalizar nossa atenção em nós mesmos é o único esforço que alguém tem que fazer para descobrir sua verdadeira identidade. Quando estivermos investigando em nosso interior, inquirindo no “eu” através de persistentes perguntas “quem sou eu?” entraremos em contacto direto com a Realidade interior, o Eterno “Eu”. Na medida da seriedade e unidirecionamento com que mergulhamos em nosso interior para ser “EU SOU”, é também a medida da recompensa que recebemos.

Ser o “Ser” não é somente o caminho mais direto, mas também o mais fácil, pois não precisamos de nenhum outro auxílio externo. Portanto, conforme Sri Bhagavan explicou, podemos concluir, que qualquer ato que dirija ou canaliza a mente tende às externalidades para o interior, até a sua fonte – o Eterno “EU” é espiritual, como também, Bhagavan Ramana abriu um caminho para nos despertar para essa verdade da felicidade interior, que se propagará por todo o mundo.

Este caminho suportará o teste do tempo, da análise lógica e da aplicação prática. Os pesquisadores da verdade vão se ater a ele e assim manter a tocha da verdade silente mais firmemente acessa pelos séculos que virão.

Qualquer um pode seguir este caminho silencioso e interior de Ramana onde quer que esteja e em qualquer etapa da vida por que esteja passando, sem qualquer dependência ou abalo aos desafios dos ambientes complexos. Assim, este caminho de introspetiva autoinvestigação está sempre aberto e portanto, qualquer um pode trilhá-lo.

Ele é simples, direto, racionalmente fundamentado na intuição e completamente livre de qualquer influência externa, seja de religião ou de dogma. Logo, este caminho é dirigido para o comerciante, para o trabalhador em escritório ou em fábricas, para profissionais em geral, tanto quanto para aqueles de mente com inclinações monásticas, que se encontram prontos a renunciar ao mundo.

O que faz o método de Bhagavan inigualável é o fato de que se baseia na intuição que é controlada pela razão; da mesma forma esse puro raciocínio é empregado na investigação do SER somente através da intuição iluminada.

Então, para resumir, vamos citar as próprias palavras de Sri Bhagavan: “O estado de permanência no “EU” é o estado do Puro Ser, Consciência Pura”. (Coração é a palavra usada por Bhagavan para essa Realidade Pura existente em nosso interior).

Tal pode ser alcançado somente através da pergunta “quem sou eu?” Tal como o homem que mergulha para apanhar algo que caiu ao mar, devemos mergulhar em nós mesmos com unidirecionamento imutável e encontrar o lugar de onde o “eu” surge. A única investigação que leva ao conhecimento do Ser é a busca do sentimento “Eu”. Se perguntarmos – “quem sou eu?”, interiormente, o “eu” individual, o “eu” limitado cai por terra arrasado, tão logo se alcance o coração.

Imediatamente a Realidade se manifesta espontaneamente como “EU, EU”. Embora se revele como “EU” não é o “eu” limitado por nós conhecido, mas o perfeito Ser, o Eterno “EU”, a Divina Essência em nós. O Ser, a verdade que procuramos conhecer está portanto em nós mesmos. Quando uma vez Sri Muruganar fez uma pergunta a Sri Bhagavan sobre o que deveria fazer para alcançar a verdade última, Sri Bhagavan respondeu: “SEJA COMO É”.




3 – O INIGUALÁVEL CAMINHO DE RAMANA
O termo autoinvestigação ou Atma Vichara é encontrado em muitas das antigas Escrituras da Índia. No seu grande trabalho “Vivekachudmani” Sri Adi Sankara diz que a libertação não pode ser alcançada por nenhum tipo de ação, mas somente através da autoinvestigação.

Em “Jnana Vasishta” o sábio Vasistha proclama: “brilhando em cada um como “EU-EU” nada mais existe além do Ser, sobre que temos que meditar... com o cajado da investigação; abatemos a mente feroz e os sentidos que serpenteiam, e os fazemos habitar o Coração”.

O “Kaivalya Navanita” declara: “Somente a investigação pode conduzir ao conhecimento revelado nos Vedas. O conhecimento do Ser não pode ser obtido pelo estudo”.

O “Srimad Bhagavad Gita” diz: “Fixe a mente firmemente no Ser”. Então, indaga-se qual seria a nova revelação feita por Bhagavan, considerando-se que a autoinvestigação já é mencionada pelas Escrituras? A resposta é fácil e pronta para aqueles que têm olhos de ver e ouvidos de ouvir. Embora a autoinvestigação seja mencionada pelas Escrituras, o atual método de praticá-la não é claramente indicado.

As Escrituras dão pistas, é verdade, como: “Não és o corpo, nem o prana, nem a mente, etc. Tu és Brahman”, mas essas indicações não enfatizam como colocar em prática o ensinamento. Este tipo de meditação enseja novamente outra atividade da mente e qualquer ação da mente, prende o indivíduo.

Começamos com a meditação, mas logo nos encontramos de volta ao lugar onde começamos. Talvez, observando esse constante labirinto que persiste, apesar da existência dos ensinamentos das Escrituras, a Suprema Realidade que outorgou essas Escrituras, pela profunda compaixão à raça humana, voltou na humana forma de Bhagavan Ramana, para dar pistas mais fáceis para se encontrar a verdade, que podem ser facilmente compreendidas, praticadas e realizadas até mesmo pelo homem comum.

O aspeto inigualável do ensinamento de Bhagavan consiste no fato de não se limitar a categorias mentais. Na verdade, Bhagavan é o grande Mestre que tratou exclusivamente do alcance, escopo e futilidade máxima em tentar se livrar das armadilhas da mente através de métodos mentais. Quando investigada, a mente imergirá na sua fonte e uma nova dimensão de seu funcionamento surgirá. No primeiro verso benedictório de “Ulladu Narpadu”, Sri Bhagavan ressalta a futilidade da meditação (no sentido em que este termo é geralmente entendido) perguntando: “Considerando que a realidade existe no Coração, além do pensamento, que pode e como se pode meditar sobre a Realidade, que é denominada Coração?” 

Isto quer dizer, se a meditação é entendida no seu sentido usual, ou seja, um processo de pensamento, não é quantidade de meditação que vai habilitar alguém a conhecer ou realizar a Realidade, que está além do pensamento. Como poderia então quantidade de pensamento capacitar alguém a realizar algo que está além do alcance do pensamento?

Então, como se deve realizar a Realidade? A resposta é dada pelo próprio Bhagavan na parte restante do mesmo verso: “Ser como a Realidade é no Coração, é verdadeira meditação.“ 

Em outras palavras, considerando que a Realidade está além do pensamento, permanecer como essa Realidade, sem pensamento, é a única maneira de meditar sobre ela e realizá-la, tal como É. Mas, como permanecer assim sem pensamento? O que é que nos impede de permanecer sem pensamento, como a Realidade? A Realidade ou Ser, brilha no Coração, além do pensamento, como o puro e sem atributos “EU SOU”.

Mas ao invés de permanecermos como esse “EU SOU”, surgem um ego, um indivíduo separado que sente “eu sou esse corpo”, “eu sou isso ou aquilo”. Este ego é a primeira raiz do pensamento o “pensamento-eu”; sem ele, nenhum outro pensamento pode existir, com já vimos. Além disso, esse eu individual é que assume as formas pensamento, como “corpo”, “mundo”, etc., que obstruem nossa permanência natural no “EU SOU”.

Daí, se desejarmos permanecer sem pensamento, como o Ser, e dessa forma realizar a Realidade como ela é, necessitaremos apenas remover esta obstrução, o primeiro pensamento ou o ego. Esta é a razão porque muitos dos versos do “ULLADU NARPADU” (ULLADU NARPADU – Quarenta Versos Sobre a Realidade) analisam e descrevem a natureza do ego e seus sub-produtos – o corpo e o mundo – pois somente quando entendermos a sua natureza, saberemos removê-los.

Qual a natureza desse ego e como evitaremos que ele se sobreponha? A resposta a essa pergunta está nos inigualáveis ensinamentos de Bhagavan. No verso 24 do “ULLADU NARPADU”, Ele nos diz que o corpo insensível não pode por si próprio dizer “eu” e que o real e eterno “EU” não surge ou desaparece, mas que entre eles surge um falso “eu” que é limitado pelo corpo e este é o ego, também conhecido como Chit-Jada-Granthi, o nó entre o Ser sensível e o corpo insensível – escravidão, alma individual, mente e assim por diante.

No verso seguinte, Sri Bhagavan nos diz: “Este ego fantasma e sem forma passa a existir tomando uma forma (o corpo); tomando forma ele permanece, se alimenta das formas que vê e cresce; deixando uma forma, toma outra”. 

Como então removeremos esta única obstrução que nos impede de feliz e pacificamente permanecer como o Ser?

A resposta é dada por Bhagavan no mesmo verso (25) “Quando o ego é procurado ele desaparece!”
Esta é uma outra pista inigualável revelada por Bhagavan. Ele a ilustrou com uma história. Um homem fingiu ser amigo tanto da família do noiva quanto da noiva, numa festa de casamento. Enquanto acreditavam nele, teve sucesso sem sua empreitada, imperando entre as famílias, participando suntuosamente do festejo. Mas, tão logo começaram a investigá-lo, tão logo as famílias tentaram descobrir quem era ele, ele fugiu e desapareceu.

Tal é o caso do ego, que da mesma forma finge ser o Ser e o corpo; ele é dotado de consciência e brilha como “EU”, que é a característica do Ser e ao mesmo tempo está limitado à forma e surge e desaparece, o que é a característica do corpo. Enquanto não investigarmos quem é, esse ego prevalecerá sobre nós e se banqueteará no conhecimento dos objetos que nos chegam através dos cinco sentidos. Mas, ao iniciarmos a autoinvestigação e tão logo tentemos saber quem é esse ego, ele fugirá e desaparecerá.

Por que, alguns podem se perguntar, o ego desaparece quando é procurado ou quando sobre ele se concentra a atenção? Conforme Sri Bhagavan explica, o ego somente passa a existir ao tomar uma forma e assim permanece tomando formas, se alimentando e obtendo força através das formas. Sem as formas a se ater, o ego não pode subsistir. Todos os pensamentos, todos os objetos, todos os conhecimentos de segundas e terceiras pessoas são apenas formas. Por isso, enquanto o ego se atém a objetos, a segundas e terceiras pessoas ele se fortalece e cresce.

Mas, o ego em si, não tem forma; então ao tentar voltar-se para si mesmo, à primeira pessoa ou à primeira matéria, ele perderá sua força, perecerá e desaparecerá. Então o ego retorna à sua fonte, no Coração.

Enquanto se ativer as segundas e terceiras pessoas ele parecerá existir, mas, ao tentar voltar-se para si mesmo, na pergunta “Quem sou eu”, verificará que é não existente.

Esta verdade é claramente expressa por Bhagavan no verso 17 do “UPADESA SARAM”: “Se investigarmos com atenção sobre a forma da mente (ou ego), será verificado que não existe o que chamamos mente! Este é o caminho direto para qualquer um e para todos!” “Quando o ego, portanto, desaparece, verificada sua não existência, o que resta? Somente o Ser, a Realidade! Este, por isso, é o caminho direto que nos capacita a permanecer no Coração como É”, como Bhagavan diz no primeiro verso benedictório do “ULLADU NARPADU”.

Outra contribuição inigualável de Sri Bhagavan é a Sua clara explicação no sentido de que não existem dois “EUS” – um deles o ego e o outro o Ser – “dualidade durante a prática e não dualidade no alcance da meta – e que o Ser é o único Eu real. Só que – como neste oceano de “EU SOU” surgem todas as emoções, sentimentos e pensamentos, predicativos do indivíduo, isto faz com que sintamos que ele, o ego, é o Eu real.

Entretanto, se atentamente nos fixarmos neste “EU” constataremos que não é o ego mas somente o Ser real. Este é o motivo pelo qual, ao ensinar a prática da autoinvestigação, Sri Bhagavan não discrimina dois “eus”, o ego e o Ser.

Ele apenas diz: investigue “Quem sou eu?” em outras palavras volte-se para aquilo que sente ser o “Eu”.

Se aquilo que sentimos como “Eu” é o Ser, ao nos fixarmos nele, o conheceremos tal como É.

Se o que sentimos como Eu é o ego, ao nos fixarmos nele, ele desaparecerá e apenas o Ser será então conhecido.

Assim, seja o “eu” que buscamos, o ego ou o Ser, o resultado será o mesmo: somente o SER, o eterno Eu, a substância e a base do falso eu, permanecerá brilhando.

Outro aspeto incomparável no ensinamento de Bhagavan é que Ele revelou a importância de ser atento. Podemos então corajosamente dizer que a técnica correta da autoinvestigação como ensinada por Bhagavan é a concentração total da atenção ao sentimento “EU”.

Enquanto tentamos alcançar o sentimento “EU” todo tipo de pensamento surge e distrai nossa atenção. Entretanto, é interessante observar que pensamentos não surgem espontaneamente, eles surgem porque pensamos neles. Além disso, os pensamentos não possuem força por si próprios, eles ganham força somente quando nos fixamos neles. Se não nos fixarmos nos pensamentos que surgem, eles perecerão por si próprios.

Bhagavan diz: “Se negarmos o ego e o eliminarmos, ignorando-o, ficaremos livres. Se aceitarmos o ego, ele nos imporá limitações e nos lançará numa luta vã para transcendê-las. Devemos, portanto, colocar de lado a concentração nos pensamentos e retornar à concentração no Ser." 

Este método de concentração é claramente ensinado por Sri Bhagavan no pequeno livro “Quem Sou Eu?” onde Ele diz: “Se outros pensamentos surgirem, devemos sem qualquer tentativa de completá-los, perguntar: a quem eles ocorrem?” O que importa, porém, se muitos pensamentos surgirem? No mesmo momento em que cada pensamento surge, se vigilantemente perguntarmos “Quem sou eu?”, a mente (nossa força de concentração) nos trará de volta (do pensamento) à fonte, o Ser; (então como nada existirá para fortalecê-lo) o pensamento que surgiu, também perecerá.

“Pela repetição desta prática, a força da mente em permanecer em sua Fonte aumenta” Esta é uma grande pista para os praticantes sadhaks (aspirantes): enquanto a atenção está voltada ao sentimento “Eu” não poderemos conhecer ou nos atermos a qualquer outra coisa. O único propósito da pesquisa é voltar nossa atenção em direção ao “Eu”. O Ser só pode ser conhecido através da autoinvestigação e a autoinvestigação não é uma atividade da mente, mas, o estado de inação da mente.

Conforme Bhagavan diz no verso 26 do “UPADESA SARAM” “Conhecer o Ser é ser o Ser, pois não há dois Seres separados. Isto é permanência no Ser”. 

No verso 27 do “ULLADU NARPADU” Bhagavan declara que a menos que nos concentremos no Ser não poderemos atingir o estado de ausência do ego no qual o “eu” não surge; e a menos que alcancemos este estado de ausência de ego, não poderemos permanecer no nosso verdadeiro estado de unidade com a Realidade. Porque deve ser assim? Porque outras sadhanas também não nos permitiriam realizar o Ser?

A razão é lucidamente explicada por Bhagavan no “Evangelho de Maharshi” (Maharshi Gospel) – (Livro II Cap. I) “Somente a autoinvestigação é o meio direto para a realização do Ser, pois qualquer outra espécie de sadhana, pressupõe a retenção da mente como instrumento de executar a sadhana e sem a mente, esta não pode ser praticada. Além disso, a tentativa de destruir o ego ou mente através de sadhanas outras que não a autoinvestigação, é semelhante ao ladrão que se faz passar por polícia, fingindo que tenta apanhar o ladrão. Somente a autoinvestigação pode revelar a verdade de que nem o ego, nem a mente realmente existem separados do EU e apenas a autoinvestigação pode nos capacitar a realizar o Ser”. 

Bhagavan também utilizou outra analogia: Ele costumava explicar que tentar matar a mente através de outras sadhanas é como tentar enterrar a própria sombra. Se a mente fosse real, poderia talvez eliminar-se a si mesmo. Mas, a verdade é que a mente é não-existente, daí porque não pode se eliminar a si mesmo tal como o homem não pode enterrar sua própria sombra! Sri Bhagavan enfatizou categoricamente em “Atma Vidya” que a autoinvestigação é o mais fácil de todos os caminhos.

Vamos verificar porque Bhagavan qualificou de “o mais fácil”. Que significam os termos “fácil e difícil”? Nas palavras de Sri Sadhu Om: “o que não gostamos, o que não podemos fazer e o que não conhecemos denominamos “difícil”, enquanto que tudo o que gostamos, o que já fizemos e o que já conhecemos, denominamos “fácil”. Ou seja, se algo está ao alcance de nossa potencialidade de amar, de fazer ou de saber, sentimos que é fácil; mas quando não está ao alcance de nossa potencialidade de amar, de fazer ou de saber, sentimos que é difícil. Com esta simples definição verifiquemos se a autoinvestigação é fácil ou difícil.

Existe alguém que possa dizer que não ama a si mesmo? Não, dentre todas as coisas que amamos, somos aquilo que mais amamos. Existe alguém que possa dizer que não conhece a si mesmo? Não, porque antes que conheçamos qualquer outra coisa, precisamos primeiro nos conhecer; quando dizemos “conheço isto e aquilo” não é uma prova de que conhecemos o sentimento “Eu”?

E existe alguém que diga que não está apto a remover todos seus atributos, tais como corpo e mente e permanecer como si próprio? Não, porque, a cada dia, no sono profundo, renovamos naturalmente e sem esforço estes atributos e permanecemos na nossa verdadeira natureza.

Então é claro que amamos nosso Ser, que conhecemos nosso Ser e que somos capazes de permanecer no Ser. Em outras palavras o iccha-sakti (o poder de amor) kriya-sakti (o poder de fazer) e jnana-sakti (o poder de conhecer) necessários para a autoinvestigação são inerentes a nós.

Por isso, a autoinvestigação é o meio mais fácil. Tudo que Sri Bhagavan nos pede para fazer é: “Ame a si mesmo, conheça a si mesmo e seja você mesmo”. Como isto pode ser qualificado de difícil?

Quando Bhagavan afirma que a autoinvestigação é o meio mais fácil, Ele nos deixa aí subtilmente uma pista. Sua afirmação significa que não estaremos sozinhos no nosso esforço, mas que Sua Graça é sempre presente a nos ajudar. Tendo Sua Graça nos conduzido, a todos, a Seus pés de Lótus, não iria Ele nos auxiliar a atingir a meta mais nobre e que valesse mais a pena, ou seja, o sucesso na autoinvestigação?

Vamos orar a Deus, que abriu esse caminho real e que também nos assevera, nas últimas linhas do Atma Vidya: “Quando a mente voltar a atenção para o interior e permanecer como É, sem pensar em mais nada, Arunachala, que brilha como o Ser, será alcançada. Graça é o que mais necessitamos; por isso vamos dirigir nosso Amor ao Ser e a Graça será por nós vivenciada.”




SOBRE A VICHARA
A Sra. Chenoy (de Bombay) indagou a Ramana se era correto se perguntasse a si mesma “Quem sou eu?” e respondesse que não era este corpo físico mas um espírito, uma labareda da chama divina. De início Bhagavan respondeu:

“Você pode fazer isso ou o que mais lhe aprouver, no fim tudo acabará bem”. Mas, após algum tempo, continuou: “Há um estágio inicial durante o qual você se identifica com o corpo, quando ainda persiste a consciência corpórea. Nesta etapa, você tem a impressão que é diferente da realidade ou Deus e assim se crê um devoto de Deus, ou seu servo ou adorador de Deus. Este é o primeiro estágio. O segundo estágio surge quando se crê uma chispa do fogo divino ou um raio do sol divino. 


Mesmo neste caso ainda persiste um sentimento de diferença entre você e Deus, conservando a consciência do corpo. O terceiro estágio surgirá quando todas essas diferenças cessam de existir e você realiza que somente existe o Eu. Há um “Eu” que surge e desaparece e outro “Eu” que sempre existe, é omnipresente. Enquanto perdura o primeiro Eu, a consciência do corpo e a perceção da diversidade ou Bheda Buddhi, continuam. Somente quando o eu (ego) morre, a realidade se revela. 


Por exemplo, no sono profundo, o primeiro eu não existe. Neste caso você não está consciente do corpo nem do mundo. Somente quando este eu se levanta, ao acordar do sono, você se torna consciente do corpo e do mundo. Mas você existia mesmo durante o sono, pois quando acorda poderá dizer “dormi profundamente”. Você que acordou e assim disse é o mesmo que existiu durante o sono. 


Você não diz que o eu que perdurou durante o sono é diferente do eu que presentemente está acordado. O eu que sempre persiste e não surge nem desaparece é a realidade. O outro eu que desaparece no sono não é real. A pessoa deve tentar realizar na vigília aquele estado inconsciente que experimenta no sono profundo, o estado no qual o pequeno eu (ego) desaparece e somente o Eu real se manifesta.”

A senhora Chenoy então perguntou: “Mas como isso é possível?” Bhagavan respondeu: “Inquirindo de onde e como surgiu este pequeno eu. A raiz de todo Bheda Buddhi (diversidade) é este eu. É a raiz de todos os pensamentos. Se você indagar de onde surgem, eles desaparecerão.”

A Sra. Chenoy tornou a perguntar: “Então não devo dizer que não sou o corpo, mas o espírito, “etc.”?

Bhagavan respondeu: “Não. A pergunta “Quem sou eu” pretende indagar, no íntimo de cada um, de onde surge o pensamento – eu. Se você concentrar sua atenção nesta pergunta, este eu-pensamento que é a raiz de todos os outros pensamentos, acarretará a destruição de todos os demais pensamentos e o Eu, ou grande Eu, somente ele permanecerá para sempre. Você não adquire nada de novo, ou sequer atinge algo que não possuísse anteriormente. Quando todos os pensamentos que escondiam o eu forem removidos, este Eu real brilhará por si mesmo.”

A Sra. Chenoy fez referência a uma passagem do livro “Quem sou eu?” na qual se afirma que se a pessoa persistir dizendo “Eu”-“Eu” isto a levará ao Eu ou realidade. E perguntou se era correto assim proceder. Um discípulo de Ramana explicou: “Se a pessoa não é capaz de praticar a Vichara (o “Quem sou eu?”) poderá repetir simplesmente “Eu”- “Eu” como se fosse um mantra, como “Krishna” ou “Rama”, como se usa no Japa. A ideia é concentrar-se num único pensamento afim de excluir os demais até que eventualmente até mesmo o mantra desapareça.”

A Sra. Chenoy perguntou: “Devemos repetir “Eu” – “Eu” de modo mecânico?” Um discípulo respondeu: “Quando se usa a palavra eu ou outra como “Krishna” certamente temos em mente que nos dirigimos a Deus que pode ser chamado por algum nome. Quando o discípulo recita um mantra como Rama, por exemplo, não estará pensando numa árvore.”

Após isso Bhagavan finalizou: “Agora você entende que está fazendo um esforço e repetindo “Eu” – “Eu” ou outros mantras e praticando a meditação. Mas quando atinge o estágio final, a meditação continuará sem qualquer esforço de sua parte. Você não poderá sair dela ou interrompê-la, porque meditação, japa ou o que quer que você a chame, é sua natureza real”.

Fonte do texto:
V. Ganesan
A Prática do Quem Sou Eu - A Técnica de Ramana Maharshi

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